MVPs · ideação · design thinking inicial
A hora que o clube chama de morta é a única em que ela pode jogar.
Das 9h às 17h, todo clube de Pádel e Beach Tennis enche a quadra no esforço — e ainda assim sobra entre um terço e dois terços da faixa. Quem tem dinheiro para jogar está trabalhando; quem está livre nesse horário não tem como pagar. Este projeto liga as duas pontas com dinheiro de incentivo fiscal.
O ativo — a faixa que ninguém consegue encher
01 · O problema
Dizer que a quadra fica parada o dia inteiro seria mentira — e mentira que qualquer dono de clube desmonta em trinta segundos. Com esforço, os clubes chegam a 35% ou 65% de ocupação nesse horário, dependendo do clube, da época do ano e da faixa. O ponto de partida honesto é esse número, e ele diz duas coisas ao mesmo tempo.
Quem enche aquele horário são o dono do clube, o montador de jogo e o professor — na unha, um grupo de cada vez, toda semana. É trabalho humano que não acumula: parou de ligar, esvaziou. Não escala e não compõe.
Todo esse esforço mexe as mesmas 2 mil pessoas que já jogam e já podem pagar. Move gente de horário — não cria jogador novo. Por isso o teto é esse: mais esforço do mesmo tipo não passa dos 65%.
O que sobra da faixa não vai ser preenchido com mais telefonema. Vai ser preenchido por outro público, com outro dinheiro — ou não vai ser preenchido.
02 · Para quem, exatamente
Quem pode estar numa quadra às 14h de uma terça-feira é, antes de todo mundo, uma criança ou um adolescente em turno oposto de escola. Está livre exatamente na hora em que a quadra sobra. E é a única pessoa desse horário para quem entrar ali muda alguma coisa de verdade.
Criança e adolescente que não praticariam esse esporte de outro jeito, por um de dois motivos — e o segundo é o que quase ninguém enxerga:
1 · Falta dinheiro. Mensalidade de escolinha, aluguel de quadra, raquete, tênis. A conta simplesmente não cabe.
2 · Falta convite. Nunca pisou num clube, não conhece o esporte, e ninguém nunca deu a entender que aquilo também era para ela. Às vezes o dinheiro até caberia — a ideia é que nunca chegou.
Por isso não é demanda reprimida. É demanda que ainda não existe. Ninguém acorda querendo aprender Pádel numa terça às 14h — alguém precisa levar a ideia até lá. E é isso que separa este projeto de uma promoção de horário vago: promoção alcança quem já queria. Aqui, o trabalho é chegar em quem nem sabia que podia querer.
03 · O modelo
A Lei Federal de Incentivo ao Esporte (abate IR) e o Pró-Esporte RS (abate ICMS) existem exatamente para isto. A empresa direciona imposto que pagaria de qualquer jeito — e leva a marca junto. Cinco partes, e uma delas é a razão das outras quatro.
Não é a beneficiária do arranjo. É o motivo dele. Aprende um esporte que nunca esteve ao alcance, com professor de verdade, numa quadra de clube — de graça, e sem que isso pareça favor. As outras quatro partes existem para que esta linha aconteça.
Converte imposto devido em patrocínio, com contrapartida de marca e relatório de impacto. Não é doação: é destinação de tributo com contrapartida.
Fatura a parte da faixa das 9h às 17h que ele não consegue vender nem no esforço. É pago, não doa — e essa é a diferença que faz o projeto durar depois do primeiro ano.
Ganha turma fixa no horário em que estava ocioso, com remuneração previsível. É quem entrega o valor e quem dá legitimidade ao projeto no campo.
A peça que quase todo projeto esquece. A Secretaria de Educação já reuniu as crianças e já sabe quem precisa — é por ela que a turma chega, nunca por anúncio.
Todo arranjo de várias partes tem uma tentação: otimizar para quem paga. É assim que projeto social vira ação de marketing com criança de figurante.
O teste é simples e vale para qualquer decisão daqui pra frente: se a mudança melhora o relatório do patrocinador e não melhora a aula, ela está errada. A quadra boa, o professor pago direito e a turma fixa vêm antes da logomarca.
Nesses mecanismos o proponente costuma precisar ser entidade sem fins lucrativos. O desenho provável é uma associação como proponente, contratando clube e professor, e com a coordenação entrando como prestação de serviço.
A dúvida específica: precisa passar por edital? As janelas do Pró-Esporte RS em 2025 foram janeiro e julho. Confirmar no edital vigente antes de qualquer decisão.
04 · O cenário, para uma pessoa só
Vale imaginar a coisa inteira acontecendo uma vez, do começo ao fim. É aqui que as duas leis entram — e é aqui que fica claro que o dinheiro não sai do bolso de ninguém: ele só muda de destino.
Doze anos, escola pública, estuda de manhã. À tarde está em casa. Nunca segurou uma raquete — não porque não quis, mas porque escolinha custa mensalidade e ninguém nunca disse que aquilo também era para ela.
Terça-feira, 14h. O clube tentou vender esse horário: ligou, montou jogo, ofereceu desconto. Encheu parte da faixa e essa quadra sobrou — como sobra quase toda terça.
A Secretaria de Educação indica a turma: vinte crianças do turno da manhã, com transporte já resolvido, porque isso ela já faz. Ninguém precisou anunciar nada.
Uma empresa de Pelotas — indústria, atacado, cooperativa, qualquer uma que apure lucro real ou deva ICMS — tem imposto a pagar de qualquer maneira. Em vez de recolher tudo, direciona uma parte para um projeto esportivo aprovado:
Abate do Imposto de Renda devido, dentro do limite que a lei fixa. Projeto aprovado pelo Ministério do Esporte.
Abate do ICMS devido. É a via que corresponde à carta enviada à Secretaria de Esportes do RS em outubro de 2025.
São dois caminhos separados, com regras e calendários próprios — não é o mesmo projeto submetido duas vezes. Um projeto pode nascer por um, por outro, ou por ambos em partes diferentes do orçamento.
O clube recebe pela quadra — não doa. O professor recebe pela aula — não é voluntário. Compra-se raquete, bola e tênis. Sobra uma parte para a coordenação e a prestação de contas, que é obrigatória e dá trabalho de verdade.
A menina está na quadra. Não como cortesia de alguém, não numa quadra emprestada de má vontade: numa turma que tem professor pago, horário fixo e material. E o custo disso, para a empresa que pagou, foi trocar o destino de um imposto que ela já devia.
Ordem de grandeza — exercício, não orçamento
| Uma turma, um ano | estimativa |
|---|---|
| Quadra paga ao clube ≈ 4h/semana no horário ocioso | R$ 20 mil |
| Professor turma fixa, remuneração previsível | R$ 20 mil |
| Material raquete, bola, tênis, uniforme — maior no 1º ano | R$ 15 mil |
| Coordenação e prestação de contas obrigatória, e o que ninguém orça | R$ 10 mil |
| Total aproximado ≈ 20 crianças · ≈ R$ 270 por criança/mês | R$ 65 mil |
Estes números são chute informado para dar escala à conversa — servem para responder “cabe no orçamento de qual empresa?”, não para submeter a edital. O orçamento real sai da conversa com o professor e com o clube, e o peso do material veio do que o projeto de Cruz Alta arrecadou.
05 · Distribuição
Este era o buraco do projeto até pouco tempo atrás. A resposta veio de um projeto que já funciona — e o público que importa é o primeiro da tabela.
| Quem joga | Não se alcança por | Alcança-se por | Quem paga |
|---|---|---|---|
| Criança e adolescenterede pública, turno oposto | anúncio, panfleto, a família | Secretaria de Educação | incentivo fiscal |
| Profissional com flexibilidadeautonomia de agenda | o próprio profissional | o RH da empresa | a empresa, como benefício |
| Idoso e aposentadotempo livre no dia | o próprio aposentado | centro de convivência, sindicato | incentivo, ou eles mesmos |
A consequência prática é grande: isto não é um negócio de marketing, é um negócio de parceria institucional. Custo de aquisição perto de zero, volume garantido, ciclo de venda longo.
E eu já tinha feito isso sem saber que era uma regra: o apoio de 2022 foi a um projeto dentro da ESEF/UFPel — a instituição que já tinha reunido as pessoas.
Mas a linha destacada é o projeto. As outras duas são extensões possíveis, com dinheiro diferente e provavelmente com regra diferente — e por isso ficam para depois, não para o piloto.
06 · Precedente
Em Cruz Alta, no Rio Grande do Sul, o Projeto Padel Ponto de Ouro — idealizado pela atleta Caroline Silveira Netto — roda uma versão disto há tempo. Virou referência nacional e apareceu no Globo Esporte.
A prefeitura entra pelas Secretarias de Esporte e Educação; o Park Padel Clube cede a quadra; crianças e adolescentes da rede pública jogam de graça.
A escala real é vinte crianças. Não duzentas. Um projeto relevante de esporte social começa com uma turma fixa — e isso é bom, porque torna o primeiro passo possível.
Ceder a quadra é mais fácil de começar e mais frágil de manter — depende de alguém continuar generoso. Pagar o clube é mais difícil de destravar e é o que permite ir de vinte crianças para duzentas sem depender de boa vontade.
07 · De onde vem
A vontade de levar esporte de raquete a quem não teria acesso não é de agora. É de 2021. O que nunca existiu foi um jeito de pagar por ela que não fosse o próprio bolso.
A GoBora nasce. Conectar jogadores, montar partida, reservar quadra — tudo interligado, com efeito de rede de verdade.
O primeiro apoio, com dinheiro próprio. Parceria com um projeto de tênis de mesa na ESEF/UFPel — alguns reais por mês, por alguns meses. Até onde o fôlego alcançava.
+1.000 partidas viabilizadas, direta e indiretamente — com um ou mais jogadores nossos em cada uma. A demanda existia.
Nenhum clube pagou um real. Não havia modelo de negócio que financiasse terminar de construir. Standby — e segue até hoje.
No aniversário de 4 anos, alguns dias de estudo: a carta à Secretaria de Esportes do RS e o mercado da cidade dimensionado. E parou aí.
Retomada agora. Entra o professor no desenho, e a distribuição finalmente ganha resposta.
Em 2022 o apoio ao projeto de tênis de mesa parava exatamente onde o caixa da GoBora parava. Era generosidade dentro do fôlego — e generosidade dentro do fôlego tem um teto muito baixo e some no primeiro mês ruim.
É esse teto que o incentivo fiscal derruba. Não é o bolso de ninguém que paga: é imposto que a empresa devia de qualquer maneira, apenas com outro destino.
A intenção é a mesma de cinco anos atrás. O que mudou foi aparecer um jeito de ela não depender de quanto sobra no fim do mês.
Mil partidas provam que o problema era real e a solução funcionava. O que não funcionou foi de onde viria o dinheiro: o clube não paga por jogador que ele acha que já teria — e o jogador, que já paga a quadra, não paga de novo para ser apresentado a alguém.
Aqui o dinheiro vem de fora dos dois, e compra um valor que nenhum dos dois tinha para vender: uma criança numa quadra às duas da tarde.
08 · Caminho
O objetivo não é escala — é atravessar o processo inteiro uma vez e descobrir onde trava.
Quando a mesma operação acontece três ou quatro vezes, o controle no braço começa a doer. É aí que a estrutura entra — e não antes.
Coordenação multi-lado com dinheiro carimbado e prestação de contas é um problema de software real — mas só depois de existir demanda para ele.
A tentação, para quem sabe construir, é começar pelo sistema — porque é a parte que se faz sozinho, sem depender de ninguém dizer sim.
Aqui isso seria começar pelo fim. Não existe nada para coordenar antes de existir uma turma. Primeiro a criança na quadra; depois, se a mesma operação começar a se repetir e a doer, aí se pensa em construir — do jeito certo, na hora certa e no formato certo.
09 · Honestidade
Isto é ideação. Prefiro listar as lacunas a fingir que o projeto está pronto.
Precisa passar por edital? A dúvida é de outubro de 2025 e continua. É a primeira coisa a resolver, porque muda o calendário inteiro.
Federal ou estadual — ou os dois? A Lei de Incentivo ao Esporte abate IR; o Pró-Esporte RS abate ICMS. São projetos separados, com regras próprias.
A associação já existe ou precisa ser criada? Se o parceiro de campo já tem CNPJ de associação, metade do caminho está andada.
Quanto pesa o material? Raquete, tênis e roupa apareceram como o gargalo real do projeto de Cruz Alta. Não estava no orçamento pensado aqui.
Quanto cada lei permite abater? Há teto sobre o imposto devido, e ele muda por lei e por ano. Isso define de que tamanho de empresa é a conversa.
A empresa quer marca ou quer imposto? Se o motivo é reputação, a contrapartida precisa ser desenhada. Se é só o abatimento, o argumento é outro.
Quanto sobra, de verdade? Os 35% a 65% são leitura de campo, não medição — varia por clube, por época e por faixa de horário. Antes de prometer horário a qualquer patrocinador, isso precisa virar número, clube por clube, com o próprio clube junto.
10 · O convite
A parte técnica eu construo quando ela fizer falta — e ela só faz falta lá na frente. O que trava tudo agora é legitimidade no campo, o primeiro patrocinador e o caminho jurídico.
Sports are made of people
e depoisConectando Jogadores
— as duas assinaturas da GoBora: a primeira, no logo de 2021; a segunda, quando o produto foi ficando mais concreto. A troca entre elas conta a história inteira. “Conectando jogadores” só funciona onde já existe jogador — e foi exatamente por isso que mais de mil partidas aconteceram sem que uma única gerasse receita.
O NobreHora é a volta à primeira frase. Antes de conectar quem joga, alguém precisa poder chegar até a quadra.
NobreHora. O clube chama aquela faixa de horário morto — e do lugar dele, faz sentido: é quando a quadra sobra. Mas para quem estuda de manhã e está em casa à tarde, é a única hora possível. Não é a hora que sobrou. É a hora em que dá.
Se você é professor de esporte de raquete, toca um projeto social, decide patrocínio numa empresa ou entende de lei de incentivo — me chama. Não precisa vir com proposta pronta.